segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Nudez

É uma nudez que as palavras nunca poderão apalpar, a tua, a meio da noite à beira da lua.
É um poema sem palavras, a tua nudez entre o sonho e a boca.
Inocentes, entregamo-nos á brancura do lençol, tal como as palavras sobre o papel. Somos impulsos, gestos, vozes à luz, à cal, à pele aprisionados.

Nos teus ombros desenho uma flor com os dedos, a mais bela flor que o amor pode inventar.
Um beijo que a exemplo das sementes, deseja só um pouco de terra e uma gota de água para poder mostrar a cor.

E havia a tal música, lânguida, talvez triste, de um cantor antigo, a meio da noite, a enlear-se nos pontos e poros com beijos longos, únicos, últimos porque era amor aquela fome de sinónimos que não conseguiamos saciar.

Sei que o verbo não pode coar tanta alegria, a luz dos teus olhos de madrugada, o coração ardendo como uma rosa a desafiar o vento.
Esta cigarra a ferver de cio e o colo esmeraldino das águas devolvem-me lembranças gregas, tardes de sol, muito perto do coração.

Nado nos teus olhos, dizes "estou feliz".
É um momento suavíssimo. Guardemo-lo ma página branca onde as palavras não se amarrotam.
Acordar devia ser sempre assim,
mergulhar nos teu olhos com um sorriso...

Gonçalo d'Avellar

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